Para Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, estruturar mal um FIDC de crédito inadimplido é um erro que não aparece imediatamente. Os problemas mais sérios nesses veículos raramente emergem durante a operação: eles já estavam presentes na fase de estruturação, embutidos em decisões que pareciam razoáveis no momento em que foram tomadas, mas que criaram fragilidades difíceis de corrigir depois que o fundo já está em funcionamento. A diferença entre um FIDC bem construído e um FIDC problemático quase sempre está em escolhas feitas antes da primeira cota ser emitida.
Conhecer esses erros com antecedência é o que permite evitá-los, e os tópicos a seguir detalham cada um deles, mostrando onde a estruturação costuma falhar e quais consequências práticas isso gera para o fundo ao longo do tempo.
Por que a definição dos critérios de elegibilidade é o primeiro ponto onde a estrutura pode falhar?
Os critérios de elegibilidade determinam quais créditos podem ser adquiridos pelo fundo. Quando esses critérios são definidos de forma ampla demais, o FIDC acaba com liberdade excessiva para incorporar ativos de qualidade heterogênea, sem parâmetros claros que protejam a carteira de deterioração progressiva. Por outro lado, critérios definidos de forma restrita demais podem inviabilizar a originação de volume suficiente para que o fundo opere de forma eficiente, criando ociosidade de capital que prejudica o retorno dos cotistas.
Esse equilíbrio é mais difícil de calibrar do que parece na fase de estruturação, porque depende de uma leitura precisa do mercado de originação disponível para aquele fundo específico. Um FIDC voltado para aquisição de crédito inadimplido de pessoa física, por exemplo, precisa de critérios que reflitam a realidade das carteiras que os cedentes efetivamente têm disponíveis para venda, e não critérios ideais que raramente serão encontrados no volume necessário para manter o fundo operando dentro da sua política de investimento. Felipe Rassi avalia que essa desconexão entre critério de elegibilidade e realidade de mercado é um dos erros mais frequentes na fase inicial de estruturação de FIDCs de NPL.
Como a escolha do administrador e do gestor afeta a qualidade operacional do fundo?
A separação entre administração e gestão em um FIDC não é apenas uma exigência regulatória: é uma divisão de responsabilidades que tem impacto direto na qualidade operacional do fundo. O administrador responde pela parte fiduciária e regulatória, enquanto o gestor é responsável pelas decisões de aquisição de carteiras e pela estratégia de recuperação. Quando essa divisão não está claramente estabelecida desde a estruturação, surgem sobreposições e lacunas que comprometem a governança do fundo em momentos de pressão.
Um erro recorrente nesse ponto é escolher administrador e gestor com base exclusivamente em custo ou relacionamento, sem verificar se ambos têm experiência específica com FIDCs de crédito inadimplido. A operação de um fundo de NPL tem particularidades que fundos de crédito performado não têm, incluindo a necessidade de acompanhar ativamente o processo de recuperação dos ativos e de lidar com a incerteza de fluxo de caixa que é inerente a carteiras inadimplidas. Profissionais sem experiência nesse tipo de estrutura tendem a subestimar essas particularidades na fase de estruturação, o que cria problemas operacionais que só ficam evidentes depois que o fundo está em funcionamento.
O que é a política de investimento de um FIDC de NPL? A política de investimento de um FIDC de NPL é o documento que define os critérios de elegibilidade dos créditos que podem ser adquiridos pelo fundo, os limites de concentração por devedor ou tipo de ativo, e as condições gerais que orientam as decisões de aquisição de carteiras pelo gestor.
De que forma a estrutura de cotas mal calibrada cria desequilíbrio desde o início?
A proporção entre cotas seniores e cotas subordinadas dentro de um FIDC define o quanto de proteção os cotistas seniores têm em caso de deterioração da carteira. Quando essa proporção é mal calibrada na fase de estruturação, o fundo pode começar a operar com uma camada de subordinação insuficiente para absorver as perdas esperadas de uma carteira de NPL, expondo os cotistas seniores a um risco maior do que o previsto nos documentos do fundo.

Na perspectiva de Felipe Rassi, esse erro de calibragem costuma acontecer quando as premissas de recuperação usadas na estruturação são excessivamente otimistas em relação ao que o mercado efetivamente entrega. Se o modelo usado para definir a proporção de subordinação assume taxas de recuperação que não refletem o comportamento histórico real de carteiras semelhantes, a estrutura de proteção do fundo começa comprometida, e qualquer desvio negativo em relação às premissas originais impacta os cotistas seniores mais rapidamente do que o esperado.
Por que a ausência de mecanismos de controle de qualidade da carteira cria riscos acumulados?
Um FIDC de NPL não adquire todos os seus créditos de uma vez. Ele vai incorporando carteiras ao longo do tempo, conforme os cedentes disponibilizam novos lotes e o gestor toma decisões de aquisição. Essa dinâmica torna essencial a existência de mecanismos de controle que acompanhem a qualidade da carteira ao longo do tempo, verificando se os créditos incorporados estão dentro dos critérios de elegibilidade e se a composição da carteira está evoluindo dentro dos parâmetros previstos na política de investimento.
Quando esses mecanismos de controle não são estruturados desde o início, o fundo tende a acumular desvios progressivos que passam despercebidos até que a carteira apresente performance abaixo do esperado. Felipe Rassi costuma reforçar que relatórios de acompanhamento de carteira com frequência adequada, auditoria periódica dos critérios de elegibilidade e revisão sistemática da composição dos ativos não são procedimentos opcionais: são o que permite identificar problemas enquanto ainda há espaço para correção, antes que o acúmulo de desvios comprometa a performance do fundo de forma irreversível.
O que esses erros revelam sobre o que realmente estrutura um FIDC de NPL de forma sólida?
Olhar para os erros mais comuns na estruturação de FIDCs de crédito inadimplido revela, por contraste, o que um fundo bem construído precisa ter desde o início: critérios de elegibilidade calibrados com a realidade do mercado de originação, equipe gestora com experiência específica em NPL, proporção de subordinação baseada em premissas conservadoras e mecanismos de controle que acompanhem a carteira ao longo de todo o ciclo de vida do fundo.
Como aponta Felipe Rassi no campo de crédito estressado, a solidez de um FIDC de NPL não se constrói na fase de recuperação dos créditos, mas muito antes, nas decisões tomadas quando o fundo ainda existe apenas como documento. Corrigir erros estruturais depois que o fundo está em operação é possível, mas custoso e limitado. Evitá-los na origem é o que diferencia uma estrutura que funciona bem ao longo do tempo de uma estrutura que cria problemas progressivos para todos os participantes envolvidos, dos cotistas ao gestor.



