Recentemente, um caso de agressão envolvendo policiais militares no Centro de São Paulo gerou grande repercussão nas redes sociais e nos meios de comunicação. O incidente ocorreu no Brás, um dos bairros mais movimentados da cidade, conhecido pelo comércio de roupas e produtos populares, onde ambulantes, em sua maioria imigrantes, lutam para garantir sua sobrevivência. A agressão a um vendedor ambulante por parte de PMs, durante uma operação de fiscalização do comércio irregular, gerou discussões acaloradas sobre os limites da atuação policial e o respeito aos direitos dos cidadãos, especialmente dos mais vulneráveis.
O episódio que chocou a opinião pública ocorreu na tarde de terça-feira, 11 de março de 2025. Um vídeo flagrou o momento exato em que dois policiais militares utilizam cassetetes para agredir um ambulante, enquanto este estava sendo abordado durante a fiscalização. O fato foi registrado por populares e rapidamente se espalhou nas redes sociais, levantando questões sobre a atuação da Polícia Militar em operações de combate ao comércio irregular no Brás. A corporação, em resposta ao ocorrido, afirmou que apura todas as circunstâncias que envolvem o caso, garantindo que não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes.
A Polícia Militar de São Paulo reforçou que os policiais estavam prestando apoio à ação de fiscalização realizada por agentes municipais da chamada “Operação Delegada”, uma parceria entre a Prefeitura e a PM para coibir o comércio ilegal na cidade. No entanto, o uso excessivo da força durante a abordagem tem sido criticado, pois não é a primeira vez que cenas de violência envolvendo policiais e ambulantes no Brás vêm à tona. Em episódios anteriores, como os ocorridos no final do ano passado, ambulantes imigrantes, em sua maioria senegaleses e marfinenses, também foram alvo de agressões por parte da polícia.
Em outubro de 2024, a cidade de São Paulo foi palco de um outro caso de brutalidade policial contra um ambulante no Brás. A vítima, um vendedor marfinense, foi alvo de comentários xenofóbicos e racistas de um policial militar, que não hesitou em ofender o ambulante com frases discriminatórias. O fato gerou protestos nas redes sociais e manifestações contra o racismo institucionalizado dentro das forças de segurança. Já em novembro de 2024, outro ambulante foi agredido de forma ainda mais violenta. Após ter sua mercadoria apreendida por fiscais da Subprefeitura da Mooca, o vendedor tentou reaver os produtos, mas acabou sendo agredido por policiais militares que participavam da operação de fiscalização.
Esses episódios têm levado à reflexão sobre a necessidade de uma reestruturação das práticas de fiscalização no Brás e em outros locais da cidade. A Operação Delegada, que visa combater o comércio informal, parece estar gerando mais conflito do que soluções, visto que as ações de fiscalização frequentemente resultam em confrontos violentos. Especialistas em segurança pública e direitos humanos argumentam que as abordagens precisam ser mais humanas, respeitando os direitos dos ambulantes e garantindo um ambiente de trabalho mais seguro para todos.
Além disso, a atuação da Polícia Militar tem sido questionada, principalmente no que diz respeito à formação e treinamento dos policiais em situações de conflito com vendedores ambulantes. Para muitos, a repressão à informalidade no comércio deve ser tratada de maneira mais integrada, envolvendo outros setores da administração pública, como assistência social, saúde e emprego, que podem oferecer alternativas mais eficazes para os trabalhadores informais.
O caso recente, assim como os anteriores, evidencia um problema recorrente no relacionamento entre a polícia e a população de imigrantes no Brasil, especialmente nas áreas urbanas mais periféricas e nos centros comerciais, como o Brás. As agressões a ambulantes imigrantes, em sua maioria originários de países africanos e asiáticos, expõem uma realidade de discriminação e violência que atinge uma parte da população que já sofre com o preconceito social e racial.
A repercussão dos casos de agressões a ambulantes no Brás tem gerado pressão sobre as autoridades, que se veem desafiadas a adotar medidas concretas para evitar que esses incidentes se repitam. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, em resposta aos casos de violência, afirmou que não compactua com ações discriminatórias e que as imagens serão analisadas para apuração dos fatos. Contudo, para muitos críticos, as respostas institucionais ainda são insuficientes e é necessário um movimento mais amplo por mudanças estruturais na abordagem policial e nas políticas de segurança pública.
Por fim, é imprescindível que as autoridades tomem medidas mais rigorosas para prevenir a violência policial e garantir que os direitos dos ambulantes sejam respeitados, sem prejuízo das ações de fiscalização do comércio irregular. A sociedade precisa de uma polícia mais justa e ética, que compreenda as complexidades da realidade urbana e busque soluções para os desafios do comércio informal, sem recorrer a práticas violentas e discriminatórias. O incidente no Brás serve como um alerta para a necessidade urgente de mudança na forma como a polícia lida com a população marginalizada e vulnerável.
Autor: Nikolaeva Orlova